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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sonoridade lenta

O ouvido surdo da cega da rua demonstra o som de seus passos. E da janela eu vejo seus passos estreitos, um por um, sono-lento. O pacote bêbado do seu sonho de fanta. Fanta, Coca, Sprite, Guaraná. O que vai ser dessa vez, pra curar essa doença que você me deixou? Vodka barata, pra ajudar a vomitar o resto do nosso amor. Lexotan, pra dormir e sonhar em esquecer o que eu já nem lembro. Mas que remédio pra apagar suas marcas do meu corpo... do meu coração? Depois do quinto ou sexto copo eu me afasto e noto que paro por segundos, paro, pelo medo do sonho. Lembro do toque da sua nuca, seca em meus olhos de remédio. Sonolenta, volto ao sofá, bêbada digito seu número em uma das frutas de cera da cozinha; fumo o último cigarro da carteira vazia, vazio na janela do meu apartamento brega, da janela da minha alma cheia de sensatez estudada. Insensatez pensada no beijo seco. A ponta do meu coração inútil, meu coração frágil, e incoerente. Ela para. Para e nota o vento gelado. Continua a andar. Pra achar a solução. Entra na loja de doces da esquina. Açúcar pros dias mais amargos da sua vida. Uma bússola pra encontrar meus caminhos, e seguir pela direção contrária. A direção contrária não aponta a direção do seu quarto. Ainda bêbada tomo o copo da sua mão cansada e te pego pela cintura, torta, ciumenta, te troco pelo chão e te deitas ao meu lado sono-lenta, tímida tiras minhas roupas suadas pela corrida de minutos atras. Nos amamos, e no gozo final me dás o "eu te amo" merecido. Sorrindo acendo teu cigarro e te digo que tenho alguém comigo, alguém perfeito; sofrendo mas perfeito. Perfeição com sua insignificância pobre, ilusão pobre. Você foi minha vontade de tentar e de esquecer teu rosto. Você foi o melhor de todos os remédios. Na hora certa, sem prescrição de nenhum médico ou pai-de-santo. Sem prever, quando te achei (ou voce me achou?) naquela calçada suja. Quando te dei aquele beijo quase inconsciente. E era pra ser só mais um. Menos um. E eu já nem quero mais nos entender, e no fim, quem precisa nos entender? Até que voce me apareça no ônibus sozinho. Porque você sabe do que eu gosto. E se não for hoje, é ali, depois do fim da curva.

*enquanto nada novo sai da minha cabeça ou do meu peito, republico o texto escrito anos atrás, a quatro mãos, por mim e pela Letícia.

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